Publicado por: enGine throbs | Dom, 2009.03.1

Existe mesmo um sexto sentido gay? [@Time Out]

As imagens e texto a cheio foram escolhidos por mim.

Bruno Horta procura respostas para o mito segundo o qual os gays sabem sempre quem é gay.

Milk

Há milhares de exemplos, mas vamos a um recente. Logo no início do filme Milk, de Gus Van Sant, a personagem Harvey Milk desce as escadas de uma estação de metro e cruza-se com um homem que não conhece.
Em centésimos de segundo ambos percebem que são gays. Olham para trás, reaproximam-se e conversam. Na cena seguinte estão na cama.

É uma capacidade tida por formidável – a de os homossexuais perceberem num instante se as outras pessoas também são. Reuniões de trabalho, casas de banho públicas, praias, transportes, fila do supermercado. Em qualquer sítio ou circunstância. Em inglês fala-se em gaydar – expressão tão popular que deu nome a uma rede social na internet. Esse radar gay existirá mesmo? Pedimos a seis gays lisboetas, entre os 23 e 36 anos, que nos dissessem que características lhes fazem disparar o instinto gay.
“É com treino e muitas horas de voo”, ironiza um deles. “Nota-se pelo dress code, condição física e aparência”. Outro destaca “o andar, o movimento das mãos, a postura e por vezes a maneira como se veste”.

A&F

O perfume, acrescenta um deles: “O gay normalmente é cheiroso e aprumado”.
Comum a todas estas opiniões é o peso do olhar: “Está tudo na veladura e volúpia dos olhos”; “o que conta é a maneira como me olham directamente nos olhos”; “o olhar insinua o desejo primário”; “é o brilhozinho nos olhos”.
Um entrevistado resume: “São pormenores que só entende quem está no mesmo comprimento de onda”. Só um deles desconstrói a ideia: “ Podia dizer que esse radar passa pelo olhar, mas tenho amigos ‘hetero’ que também olham com desejo quando falam”.
O assunto, que parece fútil, inspira de tempos a tempos investigações académicas. Um psicólogo e professor da Northwestern University, de Chicago, John Michael Bailey, já escreveu livros sobre isto (se pesquisar na net, encontra milhares de referências). E tem chegado à conclusão de que o gaydar existe mesmo. É, no entanto, criticado por sectores gays dar relevo aos maneirismos e à afectação dos homens gays – pelo que alguns consideram que está apenas a perpetuar um estereótipo.

O assunto é também tratado numa obra de referência sobre a temática, a americana Encyclopedia of Homosexuality (1990). “O folclore dos homossexuais masculinos ajuda-os a identificarem-se uns aos outros e a comunicar sem que as outras pessoas percebam; é uma maneira de criar sentido de pertença a um grupo”, lê-se. Exemplos desse folclore são o humor gay, a roupa, o visual, a pose (em suma, o chamado estilo camp e drag).

marcas

Mais: “A capacidade dos homens gays para engatarem de forma quase secreta criou o mito de que gays que não se conhecem têm um sexto sentido que lhes permite identificarem-se. Mas quanto maior visibilidade e tolerância social existe em relação à homossexualidade, mais essa capacidade de reconhecimento se torna comum a homo e heterossexuais”, diz a enciclopédia.

Opinião idêntica tem um dos gays lisboetas: “O gaydar está fora de moda, cada vez mais conheço pessoas na noite ou através de amigos de amigos”.

Mesmo que a aparição dos metrossexuais tenha vindo baralhar as coisas – já que muitos dos códigos que usam são comuns aos gays – e mesmo que a abertura da sociedade torne menos útil este mecanismo, não consta que o gaydar esteja obsoleto. Todos os dias, a todas as horas, vai dando sinal em qualquer esquina de Lisboa. E não apenas nos filmes de Gus Van Sant.

terça-feira, 17 de Fevereiro de 2009


Respostas

  1. Os olhos, ou antes os olhares…
    Não há perfumes, dress codes ou o que quer que seja; está tudo no olhar: a identificação e o interesse…
    Fala a experiência!
    Abraço.

  2. Pois…em parte concordo com o Pinguim…assim, eu enho uma esquema lol, se for só notório pelo olhar como diz o Pinguim, então é interessante, se for notório por outras caracteristicas aí já acho que é demais e passa-me ao lado. Quanto ao dress code, enine, uma ssessoa pode ser trendy ou não, sinceramente não acredito em dress code, até porque as roupas da Abercrombie são maravilhosas para Nerds e Tonhós…tipo…pólos, camisinhas com aquele xadrez e tal e as t-shirts tão sem graça…puff ñ acredito…
    Se me disseres que um dress code é ter calças de tigresse justinhas, e isso ser um dress code de um gay, aí sim acredito :-P
    falando nisso, dás-me uns boxers giríssimos da Aussiebum??dás?dás??

  3. O olhar ajuda muito, mas não é tudo. E é claro que há certas roupas e certos maneirismos que não apenas evidenciam como denunciam totalmente. Mas eu acho que um dos maiores problemas é pensar-se que só por se ser óbvio e transmitir certos sinais e encaixar-se nalguns pontos do estereótipo é uma coisa má. Não acho, até ajuda a sabermos com quem nos devemos ou não meter…

    Um dia terei uns aussie. :)

  4. Ai amigo este texto tinha dado um jeitão há uns anos atrás: a mim, pq n tenho essa capacidade de reconhecimento e escusava de ter passado por aquela experiência de três meses, e a ele (se calhar assumia quem é) … bem, ao menos já sei reconhecer o toque e o beijo! ;)

  5. Pois, a questão do olhar desejante acho que é o indicador mais claro. Olhar, reparar é o que parece mais evidente.

    Mas cuidado, porque há, por aí, muita gente que olha muito dissimuladamente.

    Abraço :)

  6. Aquelas trocas de olhares no metro e no McDonald’s são um factor…porque os olhos só desprendem quando viramos costas….depois existem outros factores…que não consigo explicar…consigo saber que alguém com quem lido é gay…mas não sei explicar porquê!

  7. O texto é fluído e muito interessando, apesar de não nos trazer muito de novo. Pela experiência que tenho (e posso dizer que fui muita até ao momento em que “assentei”), acho que o gaydar existe e funciona, com algumas avarias pelo meio. Como actualmente levo uma vida muito pacata (a de “casado”), já as “antenas” não andam no ar à espera de detectar seja o que for… Abc,

  8. Em geral os sapatos de salto alto e os chapéus com plumas são bons indicadores… :) (just kidding…)

  9. Conforme o Pinguim (que raio de nome ;) ) escreveu, o interesse expresso no olhar é primordial, no meu ponto de vista: eu sempre achei que um gajo que olha para mim mais do que o tempo necessário para identificar que eu sou do sexo masculino ou (pior) quando olham duas vezes ou (ainda pior) quando olham com interesse renovado, dia a após dia, quando sou a mesma pessoa a fazer as mesmas coisas…

    Luís, nada como: “it takes one to know one!”
    Se nós olhamos para os gajos que achamos interessantes é natural que os outros façam o mesmo…

    Mas nos dias que correm, só posso pensar que esses olhares são apenas de pessoas curiosas… para a minha sanidade mental…. senão não passam de um puro desperdício! :)

    Quanto à indumentária, lamento discordar e reforço a ideia que há dress code identificativo, mas isso não quer dizer que seja obrigatório. Da mesma maneira que podemos adivinhar quem é metaleiro, emo, rockabilly, etc pela forma como se veste, não é forçoso que TODOS façam o mesmo. E há formas vistosas (emplumadas, como disse o Zeh) ou dissimuladas (Abercrombie & Fitch) de mostrar que se é gay, pois estando dentro do meio, torna-se mais fácil perceber quem é quem (indo de encontro à ideia do Desenhos.. se bem que possam ocorrer “enganos”: heteros usarem Abercrombie & Fitch…)

    Por isso senhor Ima, se te oferecer uns boxers, serão da DIM, meu machão invicto! :twisted:

    One, não te preocupes… eu também passei por uma experiência de três meses que ainda estou para perceber o que foi.

    PS: As minhas desculpas por ter demorado tanto tempo a responder…


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