A revista Com’Out tem uma rubrica Braço-de-ferro onde o mesmo tema é visto de forma distinta por duas pessoas. O seu editor propôs-me o desafio que defendesse o lado do Não, visto eu já ter feito comentários de que não tinha comprado.
Eu estava à espera do final do mês para colocar o meu escrito aqui no blog (porque de certeza que não iria provocar uma quebra abismal no volume de vendas da revista), mas como o marasmo activista já fede por tudo o que é lado, resolvi publicar a versão não reduzida do texto para que critiquem.
E sempre podem comprar a revista e lerem a versão editada (por mim, pois como de costume, escrevi mais do que devia), que curiosamente tem uma capa com um tema bem a propósito!

Notas prévias para os leitores:
- Eu nunca comprei uma revista LGBT, apenas folheei algumas Com’Out dum amigo meu; deste modo, o mais provável é ser tendencioso pois irei emitir opiniões sobre algo que desconheço;
- A questão colocada é demasiado simples; por isso prefiro colocar outras que ajudam à sua resposta.
Que tipo de conteúdos e informação de teor LGBT a publicar?
Ou seja, o que é a Com’Out tem que as outras revistas em Portugal não têm? A Com’Out vem colmatar alguma informação relativamente à comunidade LGBT? Eu sei que quem vê capas não vê os conteúdos, mas vejamos os temas de capa da Com’Out:
- “Geração Out está In” – OK, era introdução do que estava para vir, mas não era nada de objectivo;
- Madonna – Quem é que não fala sobre ela? E não é por ser um ícone gay que passa a ser um assunto LGBT (pelo menos para mim)
- Michael Phelps – Qual é a parte dele é que é LGBT? O corpo? [ups... eu não escrevi isto, pois não?] Quem deveria ter aparecido era o Matthew Mitcham…
- Halloween – É celebrado de forma diferente se eu for gay?
- Donos de Casa Desesperados – vá lá, aqui já havia qualquer coisa… mas “travestismos” não é a minha cena…
- Maria Rebelo – dos comentários que li na net, foi o mesmo que nada, tal e qual o seu dono… ou seja um desperdício de oxigénio!
- Heath Ledger – é capa apenas por UM filme de temática gay? Ou é pela morte trágica que teve… para mim não chega… e acho que outros actores se sentiriam injustiçados…
Será que os temas principais já publicados reflectem a realidade LGBT e as suas necessidades?
Se em tempos idos, eu comprava uma revista de natação (estrangeira e bem cara) porque na altura praticava natação em águas abertas e os artigos eram uma forma de colmatar a falta de informação que eu tinha sobre o assunto, como é que esta revista me ajuda a complementar a minha vertente homossexual?
Com’Out: Recreação ou activismo?
Acho que tirando um ou outro artigo editorial, a resposta pende mais para a primeira… pois as reacções no meio electrónico relativamente ao conteúdo da revista não fizeram ondas nesse meio e muito menos causou mudanças (positivas) no quotidiano.É inquestionável que o principal problema dos LGBTs é a discriminação social e consequentemente a falta de expressão de uma realidade (vivências, modelos, experiências, valores, etc.) característicos de quem vive a sua orientação sexual de forma LGBT.
É por isso que a revista me faz confusão: é que o facto de comprá-la numa banca de jornais, faz-me pensar que o LGBTismo é aceite; mas a realidade é diferente, certo?
Qual o tipo de público a atingir?
Sob pena de ser demasiado redutor, eu penso que existem quatro grupos de pessoas nesta sociedade, do ponto de vista da sua orientação sexual:
- Os heterossexuais, que (provavelmente) não compram revistas LGBT;
- OS LGBT assumidos (e resolvidos), ou seja aqueles que compram a Com’Out numa banca como se comprassem a MaxMen ou a Cosmo;
- Os LGBTs não assumidos (mas resolvidos), que podem comprar a Com’Out desde que venha perfeitamente dissimulada, porque dar a cara é que não;
- Os LGBTs sexualmente não assumidos e não resolvidos, cuja realidade (LGBT) pode ser uma ficção…
Quais são os públicos-alvo da Com’Out actualmente, dado que para cada um destes existem necessidades e realidade diferentes? O segundo grupo é o que engloba o maior número de potencias compradores e alguns deles também virão do terceiro grupo (ao qual eu pertenço). Mas será que satisfaz a necessidade premente dos LGBTs: a eliminação da discriminação e a afirmação da sua identidade?
Heterossexuais
A realidade fracturante não é eliminada (apenas) pela existência de uma (ou mais) revista(s) LGBT: os heterossexuais precisam de ver que não somos bich@s e que todos temos direito a viver, uns com os outros, desde que haja respeito mútuo. E enquanto os assuntos LGBT não forem Integrados nos meios de comunicação (como a TimeOut faz de forma exemplar), continuamos a ser um grupo à parte.Que haja reciprocidade: se virem bem, a Com’Out incorpora a moda como um dos seus conteúdos… As outras revistas que incorporem também os assunto LGBTs!
E a Com’Out que não se preocupe, pois apesar dos meios generalistas falarem de moda, continuam a existir muitas revistas de moda…
LGBTs assumidos
O estádio final de qualquer LGBT que se preze: aí poderíamos ter uma Com’Out recreativa (e educativa)!Restantes LGBTs
Uma revista LGBT pode e deve ser um pólo de aglutinação e um veículo para abrir as mentes a quem ainda tem problemas com a forma de assumir a sua sexualidade e de se relacionar intimamente com outros LGBTs bem como os problemas relacionados com a actividade sexual. Daí serem importantes os relatos de vivências, de pessoas LGBTs que se destaquem pelo seu papel na sociedade e que inspirem os outros a viver uma vida mais autêntica.Nessa altura, eu compro…
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Concordo plenamente contigo em vários pontos, mais propriamente do 4 até ao 7, sobre os 3 primeiros, são pormenores…e não li os artigos em questão por isso…
Já para não falar no preço da revista…
Mas eu ainda irei comprar um exemplar porque não tenho onde folhear lol
Olha sobre o teu comentário no meu blog, não conhecia nada do que falaste exceptuando Abel Manta.
Mete aí uns olhos teus
PS: Que querias dizer com “escapa”?
Por: A... em Sábado, 14 Fevereiro 2009
às 14:44
pois..que sensação de deja vu lol prefiro esta versão não reduzida, é bem mais racional e mostra uma logicidade fantástica…aliás típica característica tua lol mas a revista deste mês vou comprar…e não é de todo por causa do encontro dos Bears em Lisboa…
o mal destas revistas é que são todas muito…”pseudo-intelectuais-com-a-mania-que-são-alternativas-fashionistas” coisa que pessoalmente não tem nada a ver comigo, dado o meu pragmatismo simplificador.
Mas pronto… já te disse, depois quero um autógrafo teu
Por: Ima aka Puffalinho em Sábado, 14 Fevereiro 2009
às 15:04
A…
(tou a picar ctgo enGine)
Para o enGine, “escapa” é sinónimo de está bastante bom
Por: Ima aka Puffalinho em Sábado, 14 Fevereiro 2009
às 15:06
A.. uma coisa é certa: TU ainda não sentiste compelido a comprar…
Eu estaria tentado a comprar este mês, mas mesmo assim tenho reticências:
“Políticos com coragem”? Eu não preciso de políticos, pois estes estão todos viciados pelo sistema (político). O que eu preciso é de pessoas com coragem (e abnegação) como o Harvey Milk.
E já agora entrando nos outros assuntos da capa: “encontro internacional de bears” para o quê: recreação ou activismo?
“Speed dating” mais do mesmo.. e que afinal foi cancelado por ter tido pouca afluência de interessados: como se a relação qualidade/preço do serviço não fosse desproporcionada, aliada ao facto de ter sido num estabelecimento público “visível”… Se os gays preferem poisos certos e arredados dos olhares comuns, porque haveriam de ir para o Campo Pequeno? Que organizem o evento no Trompas, num dia de semana: pode ser que assim, os gajos falem alguma coisa, em vez de só olharem/engatarem… É um sítio demasiado gay-ghetto e afastam os outros? Não há mundos perfeitos…
Os casos reais é que podem interessar… sim, porque não vão ser as plásticas nem a moda que me vão entusiasmar.
Mas eu não estou a dizer que a revista não presta e que não devem comprá-la: apenas esta ainda não é a minha revista LGBT.
Quanto ao termo “escapa” é uma ironia: claro que o desenho está giro, mas eu gostei mais mesmo dos pormenores, por isso, o desenho em si perde importância… “escapa”.
Ima, tu leste o original como “censura” prévia: ai de ti que te tivesses esquecido de palavras tão eloquentes!
E foi um bom auxílio para não pôr a pata na poça!
E como hei-de autografar? enGine?
Por: enGine throbs em Domingo, 15 Fevereiro 2009
às 1:35
Oh lindinho estava a pensar mais em Mastronça, Bardajona, Balofa…sei lá, algo que fosse mais a tua cara
É foste incisivo nos motivos da capa…continuo a achar que não têm nada a ver comigo…muito pelo contrário, exactamente o oposto da minha muy nobre ssessoa.
Excepto se calhar algo relativo a moda, mas como não gosto de calças a cair pelo rabo abaixo, não sou dado a penteados esquisitos e assimétricos e estar duas horas em frente ao espelho (só uma lol) mesmo a parte da moda…puff
O speed dating, só pós desesperados, e eu sou encalhado mas não desesperado, os bears…gostos não se discutem; há uns fofos.
Enfim…basicamente, não me diz nada, prefiro a visão e o expresso que a minha faculdade dá aos alunos todas as semanas.
Por: Ima El-Puffalhão em Domingo, 15 Fevereiro 2009
às 12:05
No essencial estou de acordo com os teus reparos, se bem que nós compremos revistas LGBT de há muitos anos (estrangeiras sobretudo e portuguesas, já que esta não é a primeira) – afinal, apesar de muitos jornais falarem de futebol, também os há só sobre esse tema…
Citando: “É por isso que a revista me faz confusão: é que o facto de comprá-la numa banca de jornais, faz-me pensar que o LGBTismo é aceite; mas a realidade é diferente, certo?” Certo! Mas não sei aonde é que essa conclusão nos leva: será que por o LGBTismo não ser aceite, não deveremos comprar revistas LGBT numa banca de jornais?…
A propósito: Nos últimos meses íamos sempre comprar a revista a uma livraria conceituada do Porto, uma que até abriu uma loja nova há pouco tempo e talvez por nossa influência começou a ter revistas LGBT (Têtu, Pref e outras). Sempre que o site da revista dá sinais de mais um número estar nas bancas, nós dávamos um par de dias para a ir procurar. E ela lá estava, sempre comprada com normalidade e sempre vendida com normalidade. Há um mês atrás, porém, em vez do número desse mês a livraria tinha recebido de novo (como que fosse novidade) o número do mês anterior. Insistindo no pedido de esclarecimento sobre quando teriam o novo número disponível (que não tinham chegado a receber) foi-me dito que não sabiam, que era a distribuidora que decidia quando o iria entregar. Perguntei se não poderiam contactar a distribuidora, se não poderia pedir a revista à distribuidora já que esta estava à venda no mercado (eu sabia de um outro sítio onde já estava) e a menina do atendimento respondeu-me secamente que não. Procurando forçar o que me parecia legítimo enquanto Cliente da casa (eu não ia lá regularmente só pelas revistas), foi-me dito que não, que não sabia, que não iam fazer nada… Irritado, eu acrescentei que então iria procurá-la a outro sítio e que encontrando-a (eu sabia que a iria encontrar) seria provável que passasse a ir adquiri-la todos os meses nesse outro sítio. Resposta da gentil menina: “isso é consigo!”
Fui de facto comprar a revista noutro local, passei a ir lá e deixei de ir à livraria. Só não apresentei uma reclamação por escrito porque não estive para me chatear mais com esta cena de homofobia ou má educação.
(O texto saiu-me sem revisão, mas eu espero que faça sentido para quem o venha a ler.)
Um abraço e parabéns pelo convite da Com’Out e pelo teu texto.
Por: Luis em Segunda-feira, 16 Fevereiro 2009
às 15:38
Ima, ok arranja lá um exemplar para eu assinar… eu não comprei.
Ainda não foi desta, mas eu não perdi a esperança!
Achas que temos de ser nós a fazer uma revista ao nosso gosto?
Luís, começo pelo fim e retribuo os agradecimentos: o teu texto saiu bem, apenas corrigi o nome da revista (eu também a troco com a Time Out
).
Eu sou pela liberdade de informação mas gosto de dar bom uso ao meu dinheiro… e como este custa a ganhar, vou adiando a compra de revistas. Eu não sou um gay que compra a Com’Out, da mesma maneira que uso roupa e não compro a Vogue (?) ou faço exercício mas não compro a Men’s Health…
Mas comprei a Fitness Swimmer, da mesma editora, quase ao preço de um livro, porque a minha sede de informação era maior!
E concordo com a liberdade de venda: chega de revistas entregues ao domicílio.. um dia!
Quanto ao episódio da livraria, acho que a reclamação é sempre digna de ser feita mas o melhor mesmo é ir comprar a outro lado: eles é que perdem!
Por: enGine throbs em Domingo, 1 Março 2009
às 3:50
e lá se foi!
lembro-me de ter trocado umas palavras contigo sobre o assunto… agora, não há mais. tinhas razão: os LGBT nacionais (e os estrangeiros pelos vistos andam na mesma onda) não aderiram ao projecto, tal como é nosso hábito. faz-me lembrar o provérbio: preso por ter cão e preso por não ter: quando não havia, dizia-se que fazia falta; quando houve, foi o que se viu. também é verdade que não é possível agradar a gregos e troianos; em todo o caso, tenho pena que tenha acabado.
sabes, às vezes aborrece-me mais o activismo que a recreação, simplesmente porque o discurso é tão panfletário e tendencioso que não há paciência.
parabéns pelo texto e pela tua visão acutilante!
abraço
Por: paulo em Sábado, 25 Abril 2009
às 19:46
Tenho pena que se tenha ido… mas aquela não era a minha revista LGBT.
O que é interessante é que cada vez me apercebo que a realidade LGBT é tanto diversificada como o resto das pessoas… por muito que nos pespeguem rótulos e “estilos de vida”, nunca encaixamos na perfeição no estereótipo.
O activismo que existe actualmente é “tão panfletário e tendencioso” porque se calhar ainda ninguém se apercebeu que há formas diferentes de ser activista: a internet tem meios suficientes para trazer os gays que estão escondidos no armário e também de fazer passar a nossa mensagem para fora da nossa “bolha”:
É bom que o teu/vosso blog exista, para que pessoas como o A. cresçam a sentir-se como pessoas normais; ele próprio já evoluiu e já influenciou outros… Isso é activismo “interno”…
Falta o activismo “externo” e que é o mais difícil, pois não é com arraiais e marchas que se passa uma imagem fidedigna VARIEDADE da homossexualidade.
Mas por ter acabado uma revista, não quer dizer que tenha acabado a Primavera…
Por: enGine throbs em Sábado, 25 Abril 2009
às 22:39